Jon Fosse

Comecei a escrever muito novo. Mesmo muito novo. Poesia. Nem digo com que idade, tenho vergonha. Não queria propriamente ser um escritor, escrevia para mim. Aí pelos meus vinte anos, escrevi um romance. Para minha grande surpresa, houve um editor que se interessou.E passei a ser um autor editado. É bom ser-se editado, mas perde-se uma espécie de inocência. Mas lá continuei a escrever. E gosto de escrever. Uma das razões é porque sou tímido. E assim posso trabalhar ao meu ritmo. Eu é que decido quando trabalho.
O teatro, pelo contrário, é uma actividade muito social. Tem que se estar com muita gente E eu gosto de estar sozinho e de escrever. Por isso é que se calhar nunca tinha pensado escrever para o teatro. Mas houve gente do teatro que leu os meus primeiros romances e achou que a minha prosa podia estar próxima do teatro. Têm poucas personagens, a acção decorre em duas ou três horas, são textos muito concentrados, muito pouco épicos. Não diria que são romances experimentais ou modernistas, a prosa é muito simples.
Como escritor, quase não ganhava dinheiro nesses meus primeiros anos, tinha mesmo muito pouco dinheiro. E quando me convidaram para escrever teatro, fiquei surpreendido por me pagarem para eu escrever umas (poucas, mesmo muito poucas) páginas. E aceitei. Foi a primeira vez que aceitei uma encomenda. E gostei muito. Gostei muito de escrever diálogos e situações. Pareceu-me que o texto era interessante, mas que revelava uma certa insegurança. Enviei a peça para um teatro. E eles trabalharam o texto. E assim passei a ser um escritor de teatro. Por alguma razão misteriosa descobriu-se que a minha maneira de escrever funcionava bem no palco. Conheço mal o teatro, foi só um acaso.

Os meus romances foram traduzidos em duas ou três línguas, mas não se pode dizer que tenham tido um grande êxito. Pelo contrário, as minhas peças estão agora a ser traduzidas por todo o lado e a ser representadas.

Em miúdo, tocava música, guitarra. aos onze anos ficava a tocar seis ou sete horas seguidas. De um dia para o outro, parei. Acabou-se a guitarra. E comecei a escrever. O que me pareceu ser uma coisa mais séria. mas comecei a escrever tentando fazer uma espécie de música.. poucas palavras, repetições, variações, silêncios.. Quando, por exemplo, oiço uma peça em tradução, eu ouço a música. Ontem, ao ver o Vai Vir Alguém em português, eu reconheci a música. Não é bem a música. Tem a ver com o ritmo e o mood. A qualidade de alguma poesia está no que não pode ser traduzido. Mas num texto dramático, pelo menos nos textos como eu os escrevo, acho que é possível traduzir. Aqui, por exemplo, é a primeira vez que venho a Lisboa, cheguei ontem, parto amanhã. Mas vejo o espectáculo e sinto-o meu, reconheço o ritmo na tradução, na maneira de representar. Se calhar porque também me sinto próximo culturalmente, a Noruega e Portugal são países atlânticos onde a presença do mar e da pesca são muito importantes. E o bacalhau...
Embora não perceba o significado das palavras que os actores estão a dizer, reconheci tudo. E tudo me pareceu muito bem, o ritmo, a concentração, a seriedade, o trabalho. Uma vez, em Olso, ouvi o Octavio Paz ler umas poesias, não percebia uma palavra, mas foi uma grande experiência para mim. e quando nessa mesma sessão, um poeta norueguês leu as traduções que fizera dos poemas, não era nada. a poesia passa por domínios que não são só os da inteligência. e o espectáculo também.

Escrever não é uma questão de inspiração mas de trabalho, uma mistura de trabalho árduo e de magia. Na poesia eu ia escrevendo uns textos, por aqui e por ali.chegava uma altura e punha-me a juntar os poemas, retrabalhar uns, pegar noutros, deitar fora para fazer um livros. Com o teatro passa-se um pouco a mesma coisa, vou escrevendo e a certa altura ponho-me a montar o que fui escrevendo.é asim que trabalho, escrevo e monto e monto. Há por isso vários excertos de peças que não estão ainda arrumados, montados.alguns serão inseridos em romances, outros trabalhados para poesia. Mas agora sei muito bem que quando vou fazer um romance vou fazer aquilo que não posso ao escrever uma peça. Ao princípio não era assim, os meus primeiros romances são de certa maneira boas peças de teatro. Se calhar, podia ter sido um bom poeta mas tinha de me dedicar só a isso, exclusivamente. E isso não quero. Não serei um bom poeta. mas está bem. A poesia exige muito tempo.

Os meus romances são grandes pedaços de texto sem pausas, sem parágrafos. E quando escrevi a minha primeira peça também a escrevi assim, numa espécie de verso livre. Assim consigo imprimir uma espécie de música. Pode ser que no Vai Vir Alguém ainda se sinta que eu nas primeiras páginas, ainda ando à procura do tom, que só a certa altura é que o encontro. é possível. Mas não tenho a certeza que isso seja um mal. Acho que uma boa obra de arte tem sempre um defeito interior, uma doença. É possível que no Vai Vir Alguém, a doença esteja no início. Mas não tenho a certeza. Posso dizer o que é que esta peça quer dizer mas nem sempre terei uma certeza.

Mesmo uma história, a maneira como avança e recua é música, vai lentamente, acelera. suspende, retoma. isso é o que me interessa No princípio ainda punha pontos de interrogação mas a certa altura achei que era tão pouca coisa que eu pontuava que era uma parvoíce. E assim, sem pontuação, as páginas ficam mais bonitas, limpas.

Escrevo muitas indicações para os actores. Por exemplo, em Vai Vir Alguém está tudo muito indicado, para onde os actores olham, o que fazem, como se sentam. Não que eu queira que isso seja respeitado quando fazem o espectáculo. Quando escrevo uma peça estou dentro de uma certa lógica e preciso de uma certa coerência. No espectáculo, há outra lógica, outra coerência. Depende dos actores, do cenário. por isso é preciso afastarem-se das indicações que eu dou, pelo menos parcialmente, mas manter essa coerência. Vai Vir Alguém foi a minha primeira peça e eu escrevi tudo, indicações sobre a mobília, o sítio de cada coisa, os olhares, os passos. Nas peças mais recentes há menos indicações, há mesmo peças em que não há nenhumas. Mas ao escrever com essas indicações todas, o que eu estou a fazer é um espectáculo imaginário. Que pode servir de guia a quem pegar no texto. Quando o Claude Régy montou a peça, ficou muito contente por haver estas indicações todas.

Há peças que ficam sempre parecidas quaisquer que sejam as encenações. Uma peça que se chama O Filho creio que vi umas cinco ou seis encenações diferentes mas que acabam por ser muito parecidas. Vai Vir Alguém não, os espectáculos que vi são muito diferentes. Mas gosto dessas diferenças. Quando comecei a escrever para o teatro tentei escrever de uma maneira que os espectáculos ficassem definidos na escrita, tentei condicionar os espectáculos que iriam ser feitos a partir das peças. Tinha que haver numa peça qualquer coisa de muito forte, definido. O espectáculo francês tinha quase duas horas e meia. mas o ritmo era o mesmo. Ritmo e tempo são coisas diferentes, e aquilo de que eu gosto é que a mesma peça pode ter duas horas e tal ou uma hora como aqui mas manter o mesmo ritmo, isso é que é a força de um texto.

Escrevo com a maior seriedade, sem sentido de humor nenhum. Mas quando depois as peças são feitas e começo a ouvir os textos, rio muito. Há um sentido cómico nos meus textos mas juro que não é voluntário. Claro que eu sou - como muitos outros antes de mim - um autor trágico que vem dentro de uma tradição muito grande. Não é que eu queira ser, sou. E num mesmo espectáculo, pode-se rir e chorar de acordo com os momento. Os meus textos estão sempre a mexer-se. E uma boa encenação de uma peça minha, devia ser muito triste e muito cómica. Não pode ser puro realismo, há uma estilização, um exagero. mas não muito. Claro que se pode representar estes papéis de maneiras diferentes, pode exagerar-se a lentidão, pode exagerar-se o realismo, pode exagerar-se a imobilidade. e fica certo porque é falso. é sempre preciso que qualquer coisa soe falso num espectáculo.Se pegares neste texto e fizeres uma representação muito realista, vais ver que não funciona. Ontem a representação que eu vi estava muito bem. As emoções estavam certas. Claro que é difícil representar um texto destes, porque se fazes tudo muito a sério, ficas ridículo. e se fazes cómico, perdes a peça. é o meu paradoxo.

Uma boa peça tem de ser muito simples. Tem de ser seguida, desenrola-se à frente dos teus olhos. Mas se é simples demais é aborrecida. Pelo menos para os actores. Por isso tem de ter também uma certa complexidade. O desafio é escrever uma coisa que ao mesmo tempo é simples e complexa. Mas ao mesmo tempo. Uma peça é boa quando há momentos muito claros, evidentes, em que todos ouvem a mesma coisa, e estes momentos plenos é o que eu gostaria de fazer. Não é que se saiba à partida onde é que vão ser esses momentos, vêm aqui ou ali. mas têm a ver com a espécie de concentração, com a energia muito simples e directa que o teatroi tem de ter. E acho que que uma peça de teatro forte tem de ser um texto forte e um texto bem fechado em si.. Há autores que escrevem textos muito abertos, estruturas muito soltas, é ver Shakespeare. e tantos outros. Eu não, eu estou do outro lado. Fecho, e ao fechar acho que fortaleço, estou a dar uma espécie de liberdade aos actores. Porque se tens uma estrutura muito definida para representar, tens mais liberdade do que com uma estrutura mais desleixada.

Há uma ideologia agora segundo a qual o autor deve participar no processo de produção do espectáculo. Mas eu não quero isso. Eu quero escrever e quero escrever sozinho. E isso dá-me liberdade. E da mesma maneira que eu tenho essa liberdade, quero que quem monte a peça tenha seja livre. E acho que é o melhor, ter vozes distintas. Uma voz que vem do texto, outra da direcção. Quando montam uma peça minha, se têm dúvidas ou querem que eu passe pelos ensaios, tenho o maior prazer em o fazer, mas se não quiserem que eu me meta, também acho bem. Decidi deixar as pessoas fazerem como quiserem, e não sei como é que se pode ser um autor dramático sem isso. Se quiseres ter um domínio absoluto. Eu escrevo um texto, esse texto é publicado. E depois tu fazes. Também não tenho a intenção de fazer encenações dos meus textos. Penso eu. Há umas semanas, falei com o Lars Norèn e ele também durante muitos anos dizia que não queria dirigir as suas peças e agora é só o que faz..E o Beckett também nos últimos anos encenou vezes sem conta. Talvez eu o faça, quando for velho.. Claro que quando vejo os espectáculos estou sempre a pensar em como é que eu resolvia isto ou aquilo.

Não quero ser só um escritor de teatro, quero continuar a escrever romances, poesia..mas é verdade que ultimamente só escrevo peças. Se calhar, deixo-me disso de um momento para o outro. Quando os teatros já não quiserem montar os meus textos, por exemplo. Posso deixar sem pena de maior.

Sempre fui um escritor sozinho. Acompanho o que se está a escrever para o teatro na Escandinávia, em Inglaterra, menos na Alemanha. Traduzi um texto de Gregory Motton, ele talvez venha a traduzir um meu. Conheço, gosto de muitos autores, Sarah Kane, traduzi o David Harrower. Mas há poucas afinidades. Sou um solitário.

Obrigado por terem feito esta peça.
Declarações de Jon Fosse n´A Capital
11/3/00

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